Comércio de antiguidades é extremamente burocrático

Paulo Simões/Rui Leite Melo

O convidado do programa da Rádio Açores/TSF “Conversa Fiada” foi Pedro Alves, jovem empresário proprietário da loja “Sótão d’Avó”. Uma loja que, como o próprio nome indica, é cheia de coisas com memória…

É verdade, mas com uma filosofia completamente inovadora. O “Sótão d’Avó” alberga no seu espaço uma diagonal de objectos, desde o mobiliário à decoração, bijutaria, roupa, tudo a preços acessíveis, e a maior parte desses objectos têm uma história para contar.

E quem deixa lá esses objectos?

A loja está aberta a todos. Qualquer pessoa que tenha oportunidade de pegar nos objectos de que se quer ver livre e que possam ter ainda alguma utilidade deposita-os à consignação na nossa loja. Depois faremos um trabalho no sentido de vender esses objectos.

Aceitam qualquer tipo de material que vos é entregue?

À partida não existe qualquer limitação. Temos desde máquinas de costura antigas que já não funcionam e que são apenas elementos decorativos, a bijutaria das marcas mais recentes, o que acontece também com a roupa. Mas é óbvio que tem de haver uma filtragem. Temos o cuidado da loja estar cheia mas temos de ser objectivos: o lixo não vende.

Acabam por ter um papel de intermediários, quer para quem vende, quer para quem compra…

Uma loja comum tem uma preocupação fundamental, que é servir bem os seus clientes. O “Sótão d’Avó” tem duas preocupações fundamentais e que são servir bem os clientes, mas igualmente, servir bem o fornecedor. Há aqui uma questão objectiva: a loja e a filosofia que nela está implementada não permitem que ninguém seja enganado. Se ganho uma percentagem sobre o valor de venda não posso aplicar preços baixos ou demasiado altos, pelo que haverá sempre uma conciliação sobre o que será o interesse do fornecedor e o nosso interesse. Por parte do cliente as experiências têm sido espectaculares. Já temos pessoas que visitam a loja diariamente para estarem a par daquilo que chega e já temos quem nos procura para aconselhamento estético na decoração da casa, inclusive para peças que temos na loja.

O preço é fixado com base em que critérios?

Principalmente no bom senso. Aconselhamos sempre uma pessoa a ter uma perspectiva simples: olhe o objecto, imagine-o nos saldos e retire valor pois está em segunda mão. É óbvio que à partida os preços são sempre bastante razoáveis, mas há que contrabalançar com o interesse do fornecedor. Há quem não tenha interesse em reter durante imenso tempo o objecto na loja, e que nem tem interesse no retorno do mesmo, e aí fazemos o preço a um valor bem mais acessível. Mas há também quem realmente precise do dinheiro que dali irá vir e, então, preferem que ele fique mais tempo para ser melhor vendido.

Que peso no negócio tem a parte do vestuário?

Estivemos bastante reticentes quanto ao vestuário. É uma vertente que depende muito da mentalidade e temos de assumir que a mentalidade açoriana no geral ainda não está preparada para certos valores e atitudes. Não estamos acostumados, isto a partir dum certo estrato social, a comprar roupa em segunda mão. Tenho imensa roupa de marca e roupa que nunca foi usada, daquela que as senhoras compram a mais nos saldos ou de ofertas que recebem e que depois não servem ou que não são bem o estilo. No início ficámos realmente reticentes, mas cada vez mais tem tido procura. Garantidamente todos os dias sai roupa. Mas não é um sector fácil de gerir.

Também têm vídeos em VHS e jogos de computador. Mas não se encontram moedas, selos, livros…

A venda de objectos que possam ser considerados antiguidades é extremamente complexa a nível legal e burocrático, e muitas vezes isso acaba por invalidar o lucro que poderia produzir uma certa venda. Mas, mesmo não os podendo ter na loja, nada me impede de os publicitar no nosso site ou de estabelecer contactos entre quem procure e quem tenha.

Como foram estes primeiros tempos?

Não posso dizer que implementar este projecto tenha sido um processo simples porque não foi. Quem iria patrocinar a loja durante esta fase de arranque deixou tudo sobre os meus ombros e vi-me com uma loja repleta de objectos e sem ter dinheiro para pagar a renda do mês seguinte. Não foi fácil.

“Depois de um início difícil, ideia inovadora de Pedro Alves começa a dar frutos”

“Quando deixei uma carreira sólida para me envolver no ramo das antiguidades, já sabia à partida onde me metia”

“O estudo de mercado foi muito simples. Se na Terceira funciona, numa ilha com metade dos açorianos, tem de funcionar”

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