O Sótão d’Avó oferece uma “visita museológica repleta de peças que se pensava já não existir”

À entrada sente-se logo o cheiro a antiguidade. Na Rua do Mercado, n.º 51, em Ponta Delgada, o Sotão d’Avó marca terreno com peças de vários estilos e de várias datas com o objectivo de destacar objectos que para muitos não têm valor. Para tantos outros, esta é uma forma de adquirir bens a preços mais módicos, sem prescindir da qualidade. Sendo este um sótão recheado, quisemos falar com Pedro Alves, o dono da loja, que nos revelou como tudo tem crescido em nove anos de existência.

Tudo começou no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada, quando Pedro Alves decidiu que a sua vida tinha que mudar. Formado em multimédia, o comerciante percebeu que a sua vida entre a rádio, televisão e relações públicas estava a ser exigente demais. Na altura, encontrava-se num processo de compra de casa e o mobiliário foi todo de segunda mão. O conceito agradou-o e a ideia de negócio foi aumentando. “Em conversa com um amigo de São Miguel, percebemos que havia, eventualmente, uma oportunidade de mercado.” Pedro estava na Terceira naquela ocasião, o que implicou uma mudança completa de vida. “Não foi um processo fácil, por ter começado na altura em que a crise se instalou, mas no próximo ano o Sótão d’Avó faz dez anos e já é uma vidinha”, explica.

A loja possui dois espaços, estando estes sedeados na Rua do Mercado n.º 43 e 51, e tem o nome que tem, porque “a terminologia que é utilizada para este tipo de lojas normalmente acaba por desvalorizar as peças que as mesmas contêm, que são memórias e sensações. As pessoas vêm na expectativa de encontrar não só objectos de segunda mão, mas também de navegar entre memórias e sensações. Daí que este nome tenha sido suficientemente acolhedor para que as pessoas gostassem do conceito e da loja”.

Pedro decidiu investir em São Miguel, porque, “curiosamente, a Terceira é um mercado um pouco mais saturado deste tipo de negócios do que São Miguel. Além disso, esta perspectiva aventureira de ir para outra ilha e abraçar um projecto novo trouxe um risco que teve implicações e consequências positivas e negativas, claro. Mas, acima de tudo, foi uma aprendizagem que levou o sótão a ser agora uma loja com alguma firmeza, uma clientela mais ou menos fixa, a capacidade de receber bem e de providenciar aos de cá e aos que vêm de fora quase uma visita museológica repleta de surpresas e de peças que se pensava já não existir”.

Mas claro que as dificuldades existiram. “Quando temos um sentimento quase de paixão por um projecto acabamos sempre por dar o ouro e sangue para que ele sobreviva. Inicialmente não fomos bem aceites pelos colegas comerciantes que não se identificavam com este tipo de negócios e que não se mostravam disponíveis. Lembro-me de sermos nomeados de ferro velho, o que por si só denota uma conotação menos positiva. O que é facto é que, com o passar do tempo, alguns destes comerciantes usaram, inclusivamente, os nossos serviços para vender o que lhes restou do fecho dos seus negócios. É nestas alturas que se cria uma relação de lojista e humana, porque o reflexo daquilo que lhes aconteceu pode acontecer-me a qualquer altura.”

Questionado sobre o factor de redução de custos, Pedro diz que “as pessoas podem querer uma diminuição das suas despesas e por isso vêm ao Sótão d’Avó para adquirirem peças, eventualmente, mais baratas do que numa loja normal, sendo certo que podem encontrar uma panóplia de objectos desde os mais antigos aos mais recentes”.

Como é normal em quase todas as lojas nesta altura do ano, o jovem diz que são muitos os turistas que procuram o seu sótão, pois estes “gostam de apreciar as peças açorianas, como por exemplo as louças. Até porque têm mais consciência de que já não é o souvenir tradicional, iguais em todos os sítios, que querem comprar. Portanto, acabam por ter aqui um espaço diferenciado neste sentido”.

Sendo este “um espaço vocacionado para velharias e antiguidades, será, provavelmente, não um dos maiores dos Açores, mas sim do país”, o que traz felicidade a Pedro Alves. “Orgulha-me saber isso por colegas da mesma área que trabalham no Continente, principalmente do Porto, que quando visitam a loja sentem-se positivamente impressionados com a forma como a loja funciona.”

Relativamente aos locais, o terceirense diz-nos que, “com o alojamento local e com este boom económico que o turismo tem trazido, têm também procurado a loja e feito alguns investimentos, porque a economia melhora e a carteira das pessoas também. E aí podem dar-se ao luxo de comprar outras coisas”, esclarece.

Apesar do que se possa pensar, nem são os que têm mais dificuldades económicas quem mais compra e valoriza estes bens. “Quando criei o Sotão d’Avó pensava que teria uma loja para pessoas pobres que necessitavam de coisas baratas. Enganei-me redondamente! O meu cliente, com noção deste tipo de negócio, é da média-alta, que viaja, visita feiras e tem uma visão actual no que respeita às decorações. Aliás, os decoradores hoje em dia não usam tudo contemporâneo, quebram sempre com uma peça mais clássica e antiga. Portanto, os clientes, de forma geral, têm alguma sofisticação e bom gosto e não têm problemas em navegar por aqui e em tocar nas peças, porque têm consciência do seu valor. Tenho mais pessoas com maiores dificuldades financeiras que se admiram com os produtos que existem na loja e que fazem piada sobre os mesmos por estarem aqui à venda. Isto não quer dizer que estas pessoas sejam piores que as outras, apenas estão a viver uma fase das suas vidas que não lhes permite valorizar este tipo de objectos.”

A qualidade é algo visível nos vários corredores que percorremos desta loja, até porque Pedro Alves trabalha para isso. “Eu esforço-me por fazer uma selecção o melhor possível. A modalidade principal de venda na loja é à consignação. Ou seja, temos quase 1000 pessoas com material dentro da loja, que é consignado, e o cliente é ressarcido da maior parte do valor depois de este ser vendido. Temos, também, a modalidade de compras de pequenos objectos ou lotes, mas isso é mais raro, porque o investimento em peças de segunda mão não nos diz a que velocidade a que elas vão ser vendidas. É sempre o tipo de negócio em que eu recuo mais. Seria mais lucrativo comprar para vender, mas seria mais arriscado. Com a consignação a margem para o cliente é confortável e a parte legal fica a cargo da loja”, explicou-nos Pedro.
Se é uma realidade que muitos cá vêem, outra é que são os jovens quem mais procura este conceito. “Tenho reparado que este ano têm vindo, sobretudo, mais jovens que talvez tenham ganho consciência da estética e do valor patrimonial que algumas peças têm. Mas acho, também, que isso tem a ver com a evolução natural das modas, da forma como se lida com os mercados de segundo mão. Por outro lado, parece-me que as low cost têm permitido aos jovens abrir horizontes, visitando outros países e tendo contactos com as feiras em países mais desenvolvidos. Através destas experiências eles trazem um espírito mais aberto para os Açores.”

Quem quer vender, leva para o Sótão d’Avó com maior incidência “peças decorativas, copos, chávenas, conjuntos de louça, jarras, cristais, entre outros bens. São coisas sem utilidade no dia-a-dia, mas muitas vezes são filhos que vivem fora daqui e que herdam aquelas peças, não fazendo sentido levá-las para onde vivem. Acho que o maior nicho de venda vem nesse sentido. Depois é o mobiliário que surge muito no sótão por motivos de mudança de casa e de móveis, divórcios, etc”.

Quanto àqueles que querem comprar, os objectos procurados dependem “muito da necessidade de quem aqui vem, mas as cómodas são muito procuradas, assim como as mesinhas-da-cabeceira antigas. A arte sacra continua a ser uma das secções com mais relevância”.
De qualquer forma, os clientes deste sótão levam quase sempre peças únicas para casa
“Costumo dizer que os clientes têm que ter um olho quase clínico, porque são milhares de objectos que vivem e convivem entre si neste lugar antes de serem vendidos. É preciso vir ao sótão com mais de cinco minutos”, adianta o comerciante.

Mas no início este espaço conheceu realidades bem diferentes e difíceis. “Nos primeiros quatro anos do projecto eu vendia, por exemplo, camas para que as pessoas pagassem facturas como a água e a luz. Esta é uma parte que se calhar muitas pessoas desconhecem do sótão. Em muitos momentos, para muitas famílias o sótão foi um apoio fundamental para fazerem face a algumas despesas que tinham, apesar de eu não conseguir fazer a minha margem de lucro.” Mas isso para Pedro Alves faz sentido, pois “o sótão foi pensado inicialmente com uma vertente social implícita. Um dos projectos que ainda não foi implementado aqui está relacionado com o trabalho que podemos fazer com instituições, pois há muitas que produzem artesanato. Este é um objectivo que não morreu e já há um primeiro passo dado com a Arrisca neste sentido. Aqui não existe só lucro financeiro, que é necessário, mas também uma vontade de haver uma ternura social, sendo um apoio a algumas instituições que fazem o bem”.

Chegam a esta loja bens de vários países e com várias marcas históricas. Pedro explica-nos que recebem “espólios de casas viajadas que acumulam durante a vida peças que vieram dos mais impensáveis sítios. Estas informações são normalmente dadas pelos familiares que se estão a desfazer dos objectos e às vezes estão identificados com a proveniência do local”.

O interesse nesta matéria é visível da parte deste terceirense quando o mesmo diz que “é engraçado perceber como alguns aspectos do passado se casam entre si. As famílias mais endinheiradas tinham acesso a mobiliário com influência de outros países e tinham, também, alguns móveis que misturavam estilos completam

ente opostos. Isto acontecia, porque os nossos marceneiros, que faziam os trabalhos em acácia, começaram a copiar os estilos dos móveis importados, tentando dar um ar diferente ao mobiliário, o que é curioso para percebermos até a história do mobiliário açoriano”.

Diz-nos ainda este comerciante que há produtos nesta loja com “uma marca típica de detalhe em relevo que define os móveis dos Açores, assim como há aqueles com mais requinte que têm osso de baleia, prata e mármores mais raros, por exemplo”.
Como se já tudo isso não bastasse, quem passear por esta loja encontrará ainda livros, bijuteria e discos em vinil que, segundo o dono, têm tido uma afluência extraordinária nos últimos tempos. “Com o renascer de empresas que voltaram a comercializar os leitores de vinil, muitos DJS e coleccionadores compram todas as semanas discos de vinil. Quanto aos livros, não tenho a possibilidade de fazer aqui uma secção de alfarrabista à séria, porque isso implicaria uma logística diferente, mas acabei por vocacionar a loja para os opostos: tenho dos mais antigos aos mais recentes para agradar a todos”.

Os preços são para todas as carteiras, mas o comerciante garante que “ é muito difícil negociar numa loja de segunda mão, porque há que agradar quem vende o objecto, quem o vai comprar e no meio fazer lucro para manter a porta aberta”.
Já no final da entrevista, Pedro fez o alerta aos jovens que querem começar um negócio de que partilhar o espaço com outros comerciantes é uma boa opção. “Muitas vezes isto é o melhor para criar uma marca, perceber se perceber se funciona no mercado e depois, então, progredir para um espaço maior ou simplesmente fechar, quando aí despesa terá sido menor.”

A um ano de completar uma década, o Sótão d’Avó preenche-se de peças diferentes e únicas, que nos fazem relembrar tempos idos e memórias que nunca se apagarão da nossa infância e mocidade. Desde máquinas de escrever a candeeiros de petróleo, tudo reluz nesta casa aonde se pode – ainda – ver telefones como antigamente e ouvir música portuguesa de todos os tempos, enquanto os relógios de parede antigos ajudam a parar o tempo enquanto se faz uma viagem pela História e pelas gentes dos Açores e, por vezes, do mundo inteiro.

Fonte: http://correiodosacores.pt/index.php/destaques-esquerda/35752-o-sotao-d-avo-oferece-uma-visita-museologica-repleta-de-pecas-que-se-pensava-ja-nao-existir

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